O Cônsul

 

Aluga-se quarto e sala, com vista para o mar, ótima localização bem no centro da cidade, era o que dizia o anúncio sedutor na sessão de imobiliária daquele dia, o Edifício era Themis.

Incumbida por Zabe de verificar as condições do apartamento, ja que por contato telefônico houve uma boa impressão a respeito do imóvel, marcaram-se o horário e o dia, mas fiquei de confirmar uma hora antes que estaria lá, aproveitei para ver outros apartamentos naquela região.

Eram 11 horas quando disquei para o número..

- Alô, oi por gentileza é o senhor José?

- Sim, é ele.

- Meu noivo falou ontem com o senhor a respeito do apartamento do Edificio Themis.

- Ah sim!!! que horas você quer ver?

- Pode ser agora?

- Pode sim, marcamos para às 12 h então, ja estou indo para lá, mas vou sair daqui exclusivamente para lhe atender viu?! a propósito, só para você saber “Eu sou Cônsul”!

- ok (hum?! o que tem haver isso? esse cara é doido?) 

Bom, com endereço em mãos, descambei para os lados do Pelourinho, pelo caminho ia pensando nos outros apartamentos que tinha visto.

Quando cheguei no local indicado, não foi nada difícil encontrar o tal edifício Themis, mas estranhei porque parecia se tratar de um prédio com mil e uma utilidades, servia de hotel, restaurante, serviços em geral e também servia de residência.. ja me passou uma má impressão, mas deixei desenrolar a novela.

O guardinha-de-chumbo, ops, o recepcionisto me informou que deveria esperar o Sr. José, para entrar  no prédio, não era permitido visitas perambulando por lá.. A impressão que tive quando ele me disse isso foi outra, pra ser bem exata achei que ele imaginava que eu fazia algum tipo de programa, não sei se isso é de costume por lá.. mas enfim, foi a entonação que senti ter sido dada no momento.

Me sentindo um tanto constrangida de estar lá parada esperando o Dr. José que não chegava, resolvi dar explicações do que exatamente estava  fazendo lá..  comecei perguntando se os apartamentos que estavam para locar eram bons e justifiquei a minha espera.

Foi daí o recepcionista me disse – você sabe que o Sr. José é cônsul ?

- Ah, sei sim, ele me disse por telefone. (pensei: Grande coisa, se fosse uma Brastemp)

- É, ele é cônsul.

- E olha ele chegando aí.

- Olá, você é que é a Zibi?

- Oi, sim, sou eu.

- Eu sou o Cônsul, muito prazer, vamos ver o apartamento? ( ué o nome dele não era José?).

- Vamos. (entramos no elevador).

- O apartamento é uma beleza, você vai adorar, é um dos melhores aqui dessa região.

- Hum, sério? (pensei: que cara prepotente hein? melhor da região? ta delirando?).

As portas do elevador se abrem, e entramos num ambiente sinistro, um longo corredor a meia luz, e quanto mais adentravamos na escuridão, mais o corredor afunilava, notei que as paredes e o chão eram sujos. Paramos na porta da suíte 5 estrelas do Dr. Cônsul, só a porta ja assustava, toda lascada, e a tinta seca desgrudava da porta com qualquer movimento.

Quando as portas se abriram, me senti ambientada num filme de terror.

As paredes descascadas, sujeira para todo lado, o banheiro imundo, cheio de baratas, a lâmpada quase despencando do teto, as cortinas manchadas.. e ele muito cara de pau me dizendo.

- Esse apartamento é uma beleza, veja só, você não vai encontrar outro assim por aqui.

_ Sim, sim. (Graças a deus que não vou encontrar outro desse mesmo estilo, valha-me deus!!).

Papo vai, papo vem, ele me empurrando o bagulho, e eu caindo fora com toda classe.

- Quer uma carona? estou indo para aqueles lados.

A príncipio havia aceitado, mas enquanto desciamos com o elevador, meu pensamento insistente dizia, não vai, não vai.. e acabei dando uma desculpa para me livrar do bendito.

Até hoje eu e Zabe fazemos brincadeira com essa história, quando alguém está querendo “aparecer”, se achar o “máximo”, dizemos.. ele é o cônsul.

 

 

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